O não-pensar imediato

Publicado por Milton Terra
28/9/2011
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A forma de comunicação cotidiana foi alterada consideravelmente nos últimos 15 anos, com a exponencial utilização da Internet e o (in)consequente aumento da velocidade na troca de informação.

No âmbito profissional, essa questão trouxe impactos ignorados pela maioria que, apesar de fazer uso da tecnologia cada vez mais avançada, não sabe gerenciar seu trabalho e seu cotidiano de forma a aumentar a qualidade do seu trabalho e melhorar os retornos de seus esforços.

Como exemplo básico, trago a questão do e-mail, que é a forma mais utilizada na comunicação dos profissionais com seus clientes, parceiros e colegas de empresa.

O e-mail é, em sua essência, uma forma de comunicação assíncrona, ou seja, em tese, não demanda uma resposta imediata da requisição primária. No caso de uma questão urgente e necessária de resposta imediata, o telefone seria, por exemplo, a melhor forma de comunicação. No entanto, vemos cotidianamente que as pessoas (clientes e fornecedores), ao enviarem um e-mail, esperam (e em alguns momentos cobram) uma resposta quase imediata da outra parte, gerando com isso o título desse artigo.

A pressão pelo imediatismo (visto como sinônimo de “atenção e competência”) gera uma reação errônea da parte respondente, que é: “Responder da forma mais rápida possível”. Com isso, em grande parte dos casos, vimos respostas dadas sem análise devida, outras vezes percebe-se que as pessoas nem mesmo lêem com cuidado e atenção as mensagens que demandam suas respostas!!

Atualmente, o “imediato” é vendido como mais importante, ou seja, as pessoas não conseguem esperar para comprarem algum produto. Compram antes mesmo de seu lançamento, consumindo algo que, na verdade, não têm certeza de sua necessidade e são tratadas como “celebridades” por isso. Os profissionais mudam de emprego em busca do sucesso imediato, sem perceberem que mais importante que chegar ao topo, é chegar lá e não cair. Já diziam nossos avós: “É necessário plantar para colher!”.  As empresas desenvolvem software sem pensarem se a solução definida é mesmo a ideal pois, na maioria dos casos, é simplesmente a primeira solução que surgiu.

Ou seja, não se pensa mais na resposta do e-mail, não se utiliza mais “tempo” para achar a solução correta para um projeto e quando se tenta colocar em prática “o pensar”, num primeiro momento, isso não é valorizado. É visto como perda de tempo ou de gasto desnecessário de dinheiro do projeto pelos clientes, que esquecem que o mais importante é o “conhecimento” e que é exatamente por isso que estão pagando: para que a empresa contratada e seus funcionários pensem, analisem e executem o projeto e não somente a última etapa.

Todos – clientes, fornecedores, profissionais – sofrem pressões diversas e querem que as respostas venham de forma rápida, para que a pressão seja atendida e a rapidez valorizada. Assim, não percebem que quando uma resposta/solução inteligente é demandada, a “pressa do imediatismo” trará inevitavelmente uma “solução não ideal” para tal projeto. E, dessa forma, todos serão impactados com a frustação futura pois, como diz o poeta, “Quem semeia vento, colhe tempestade”.

No desenvolvimento de software, isso pode ser traduzido pela ansiedade (em definir soluções e entregar projetos) gerada, muitas vezes, por pressão de clientes, gerentes ou prazos pré-definidos em acordos comerciais. Prazos esses que impossibilitam o trabalho com qualidade e execução da solução “não imediata”.

As empresas que cedem a essa pressão sem deixar claro à outra parte sua postura (de que a qualidade do trabalho a ser realizado é vital para o sucesso dos projetos e para o aumento, inclusive, do ROI de curto, médio e longo prazos)  trazem para si a responsabilidade do trabalho entregue a qualquer custo e, no caso, este custo é pago por todos: o cliente, que terá um produto que não atende às suas expectativas, a empresa fornecedora, que perderá um cliente, e os profissionais que, ao final, terão o estresse e desmotivação de terem trabalhado da forma que nunca sonharam.

Não estou dizendo que no mundo real seja viável trabalhar com prazos ideais, utilizando o tempo máximo para achar a melhor solução, mas sim que o equilíbrio entre a tranquilidade bucólica e a pressa de uma linha de produção industrial deve ser obtida em projetos que demandem um esforço intelectual mais apurado do que o parafusar de rodas em uma linha de produção automotiva, pois a consequência do não equilíbrio será o descontrole do carro algumas poucas curvas após o início da viagem.

3 Comentários

  • Reply

    Por Ronaldão em 5 de November de 2011 às 22:36

    Muito bem colocado.
    O mundo fast-food… é complicado e carente de pensadores.

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    Por William Possato em 18 de April de 2012 às 10:43

    Muito bem pontuado.
    Prudência e consciência na escolha do comportamentos e das atitudes para com as pessoas com que nos relacionamos serão sempre ferramentas muito úteis e que nos pouparão de vários desgastes e dissabores. Enfim, a pressa é inimiga da eficiência.

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    Por Marcio Duran em 7 de November de 2012 às 9:48

    “No desenvolvimento de software, isso pode ser traduzido pela ansiedade (em definir soluções e entregar projetos) gerada, muitas vezes, por pressão de clientes, gerentes ou prazos pré-definidos em acordos comerciais”

    Quantas reuniões são necessária para que um projeto piloto desenvolvido pela ZBra possa dar aprovação em tempo e prazo de entrega, qual é a estratégia ela aborda após a entrega do software esse fica linkado como uma parceira entre cliente e fornecedor.





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